segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Cinquenta

Cançoneta dos cinquenta



Levantei-me do fundo 
folha caída
perdida esquecida
amarga ferida
E o céu chegou
em fogo ardente 
perdido distante
e o fundo poço
de águas paradas
deixou o que era
fez-se nascente
Veio a clara luz 
do amanhecer 
e veio o ocaso 
brilho assustador
não, não tive medo
contornei a dor
procurei coragem
desfrutei poesia 
como outrora era
ganhei fôlego 
alegria 
e encontrei 
uma lua 
brilhante e cheia
segredo
de amantes
a poesia
e escrevi, escrevi ...
escrevi o fruto a crescer
escrevi o mar e a areia
e o penhasco e a eira
e escrevi a dor 
a saudade
as flores 
as ruínas
os contos de fadas
os amigos de agora 
os amigos de sempre
e escrevi-te a ti 
reescrevi-me a mim
e...
vivi
vivi
VIVI

LenaMar - 2015

sábado, 5 de novembro de 2016

Viseu no coração

HelenaGonçalves_Viseu_03/11/2016
Viseu no coração (e coração)
Há lugares perdidos nos confins de mim, 
que encontro às vezes nos rumos que tomo! 
Cantores atores cinema música 
vida passado história
Há mentes que se encantam e se sentem... 
Corações que se chamam sem falar... 
Espíritos que sopram ao ouvido doces melodias... 
Chamados ocultos em desesperos e angústias... 
Vidas que se tocam, estando longe... 
Caminhos que se abraçam em compassos... 
Beijos que se dão sem serem dados... 
Músicas que se ouvem em segredo... 
Medos que se ocultam sem sentido...
Há um mundo inteiro a percorrer 
os abraços que se apertam com vontade
de um universo de saudade...

LenaMar - 04/11/2016

domingo, 16 de outubro de 2016

O tempo



A sombra do tempo

O que é um segundo?
E um minuto?


Ah! Um segundo...
Um minuto...
Pode ser a vida inteira

E num minuto o primeiro passo
A primeira queda de bicicleta
A primeira subida na árvore do quintal
A primeira carícia...
O primeiro amor...
O primeiro querer
para bem e para mal

Num minuto
A vida inteira de entrega
o amor de uma vida
quando a demora
é no beijo apetecida
e a pele fica
na pele humedecida
quando o calor
te encontra no escuro
e é odor de paixão
o que procuras
tendo certo
o querer absoluto

Um minuto
Um segundo
É o banal soluço da espera
A sala cheia de solidão
são anos e vidas feitas
São sombra
escuridão

LenaMar
- maio/2016

Sombra




“Qual imagem de ti próprio
Nessas estradas de vento
Inventando personagens
No compasso do momento
E de ouro inúteis imagens
De um deus abandonado
Corres em busca de céu,
De mar e sol e de terra
Mas já tudo se perdeu”


LenaMar – 08/out/2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Lua


LUA
Escrevi poemas à Lua
Em noite de Lua cheia
A Lua encheu-me de beijos
ternura carinho cor
Fez da sombra esconderijo
Alicerce do amor
E da tua ávida mão
Perseu de Cassiopeia
LenaMar - 18 de agosto de 2016

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Amizade

HelenaGonçalves - 24/06/2016 - em Viseu

AMIZADE
Caía a tarde
quando lembrei
De um sonho alto
que então sonhei
perdido o norte
o rumo o chão
a estrada larga
na voz suave
teu nome inteiro
O que sonhei?
Isso não sei.
Só sei que o tempo
não apaga nunca
o sentimento
a amizade mútua
o querer bem
só porque sim
gostar de ter-te

perto de mim

LenaMar - 24/06/2016

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Viajante

Helena Gonçalves - Novembro/2015 - Bélgica

VIAGEM


Sou viajante errante
Não procuro rumo certo
Sinto nas voltas do tempo
Tudo o surpreendente
E tenho no imprevisto 
O horário da alegria
Neste comboio em que sigo,
E que me foi oferecido,
Encontro a felicidade
No parecer tempo perdido

LenaMar - 2015

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Memória

UM DIA


Helena Gonçalves - Viseu - 2016
Um dia 
Um dia conto-te tudo
As horas vazias 
O olhar perdido
A espera
A esperança
A ilusão
Um dia...
Não sei quando
Um dia conto-te tudo
A inocência 
O espanto 
A crença
A surpresa 
A revelação
A pesada desilusão
Um dia conto-te tudo
A fraqueza
A força
Conto-te o perdão 
E o porquê
Conto-te a memória
Guardiã do bom
E do mau
Um dia ...
Um dia conto-te.

LenaMar 


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Manhã de sol

R. Ponte de Pau, Viseu - 31-03-2016
Manhã de sol ou primavera

De madrugada acorda a saudade... 
de mansinho... 
sorrateira e incerta... 
bate à porta da muralha dos meus olhos cansados e transfigura-se. 
Segue lágrima ferida de sangue, o contorno ovalado do rosto... 
Aloja-se perdida no sopé do peito dorido.
Sinto-a fria... a saudade.
E a carícia que então recebe  o peito caído, 
alimento de três crias há muito desmamadas, 
essa carícia solene, 
feita sangue vertido em lágrima, 
traz consigo aquela mão que, 
sorrateira e decidida, 
lhe pegou e possuiu.
E... Ah! como é boa esta saudade! 
De quê?
De mim... de mim contigo. 
Da promessa que fui ao teu lado. 
Ainda sou. 
Mas contigo. 
Só contigo!

LenaMar - 02 de abril de 2016

terça-feira, 1 de março de 2016

A minha cidade

Ai cidade

Gosto de ti
Gosto de ti serena
Quando à noite já cansada da azáfama dos dias
Encostas a cabeça na almofada da Sé e dormes
Quando fechas os olhos e te enroscas
a Sul
no Moinho de Vento
ou na Meia Laranja

Quando o dia claro e solarengo dá lugar à luz do candeeiro
e torna amarelo o teu vestido de pedra
Quando a rua Direita é ainda um murmúrio delicioso

Gosto de ti de manhã cedo
por entre as árvores do Fontelo
e do cheiro a terra e verde que lá tens

Gosto de ti com cheiro a café forte no Rossio
ou na rua da Paz
Quando a rua é já vazio e a luz clara já partiu

Gosto de ti na noite de verão
nas ruas íngremes que percorres
até ao latoeiro ao queijo e ao presunto

Gosto de ti no telhado de pedra dessa Sé
que me viu estudar…
contemplar… amar… chorar…

Mas gosto sobretudo de ti
na calçada que atravessa o rio
e sobe ligeira até ao teu ventre
e me deixa aninhada
e ofegante no carinho dos teus braços

Gosto de ti nos etéreos recantos
desse parque dos amores
onde a manhã sabe flores da primavera
e a tarde a outono quente

Gosto gosto muito de ti

Gosto de ti ao longe nas breves ausências
E de voltar a entrar … devagarinho…
Sem pressas
Suavemente
Saboreando cada pedacinho
da tua voz
da tua carne
da tua ternura

És minha
Sempre foste minha

Estou em casa

LenaMar - fevereiro 2016
LenaMar_1_1_2016_Viseu

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Carvalha da minha infância



CARVALHA DA MINHA INFÂNCIA

Dlim dlão! … dlim dlão! …
Quantas bolotas tem este chão?
Dlim dlão! … dlim dlão!
E quantos sonhos tem este verão?

Tem cheiro de ervas
Cheiro de feno
Cheiro de vacas
Que pastam no sereno
Cheiro do rio
Orvalho doce
Do mosto feito
Por pés de moço
Colhido em bardos
Por mãos de fadas

Tem cheiro a terra
Fresca e regada
Cheiro de pai
E mãos de fada
Que costuram roupa
Bem acabada

Dlim dlão! Dlim dlão!

Ah! Se eu pudesse
Voltar atrás
Andar de baloiço
Nesse vai e vem
E pelo caminho
Na alvorada
Voltar à paz
Da carvalha amada!

LenaMar - fev.2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Luar


Moinho-Velho, 2016
A Lua

Vai alta a lua 
é claro o luar
peço-lhe abrigo
põe-se a chorar
e... no desalento
dessa clara noite
escurece o brilho
do teu coração
que andou perdido
sem rumo 
e sem chão
e tentou baixinho
pedir-me perdão.
LenaMar, 2 FEV 2016

sábado, 30 de janeiro de 2016

Cantiga

Cantiga
Viseu, 2016, LenaMar

Havia um campo vazio
Oco escuro e frio
Plantaste um roseiral
E camélias já floridas
Naquele inverno chuvoso
E trouxeste a primavera
E a música do canto do rouxinol
E renasci
Levantei
Sorri

LenaMar_janeiro_2016


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Juventude

Fotografia da página de Rosa Carvalho no Facebook

JUVENTUDE
- Vens à tardinha à ponte?
Aquela, a da calçada?
Anda lá, vem ter comigo! 

- Não sei, olha qu'hoje saio tarde,
Tenho tanto que estudar
E estou tão atrasada!

- Prometo que vais gostar.
Hoje tenho uma surpresa,
Não me vou acobardar…

- Está bem, penso no assunto,
Mas só se me fores buscar,
Logo no final das aulas,
Eu não gosto de esperar.

- Descansa, estou à tua espera,
Venho a correr do liceu!

- Não precisas de correr,
Se tardares eu espero um pouco,
Também eu te quero ver.

lena mar - hoje




NÃO


NÃO

Não quero louros
Nem flores
Nem desculpas
Nem perdão

Não
Não quero nada de teu
Quero tão só o que é meu

Meu entusiasmo
Meu ser
Minha paixão
Meu prazer

Não

Não quero louros
Nem flores
Nem desculpas
Nem perdão

Quero a vida que me deves
A vida
Na minha mão

lena mar - abril 2012

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Uma vez uma vida



UMA VEZ UMA VIDA


Passou a madrugada
Ainda fria
E os medos
Os sonhos
De menina

Na alvorada, cânticos  
De esperança
Sinetas e trinados
De encantos
Apenas acendeu
Por uma vez
O fogo daquele beijo
Matinal

E o amanhã veio
E prolongou-se…
Perdeu-se a chama
E, no rescaldo,
O brilho límpido
Das sementes
Que florescem
No jardim

E o rio em seu curso
Arrasta a lama
Deixa água límpida
Em seu lugar
E mesmo não ardendo
Em grande chama
Há ternura
Bem
Paz
E luar

Mas eis que a tarde 
Se aproxima
E
Com vendavais
Levanta as cinzas
E, do restolho,
Quase morto,
Aviva a brasa
Acende o fogo
E onde ardera
Um lume brando,
Em seu torpor
Quase sem vida,
Há chama alta
Há um incêndio
Vivo…
Incontrolado
Cheio de cor…

Espera-se a noite
Agitada
Serena
Esmagadora
Calma
Dolorosa
Sofredora…
Onde a saudade
Reside e chora.



LenaMar – 2 de Abril de 2015

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Abraço

ABRAÇO

A minha pátria é o mundo 
E eu pertenço-lhe inteira 
Voo ao sabor do vento 
E bebo a chuva que cai
Nos meus lábios sedentos 
De amor ternura paixão…
Ando nesta bebedeira 
Deambulo pela vida
Não sei se ria se chore
Perdida numa vontade,
Que não sendo passageira
É certamente imoral
Diz-me, tu, o que pensar
De tamanho devaneio
Diz-me o que queres de mim
O que se passa em meu peito
Não me deixes na incerteza
Assim, partida a meio
Ó vida! Vá, anda lá,
Abraça-me no teu peito!

Helena Rocha 
19 de Maio 1984 - Sábado

domingo, 10 de janeiro de 2016

Ao pé de ti

AO PÉ DE TI!

Ao pé de ti eu não sou eu
Desmonto-me
Reinvento-me
E espanto-me
Desapareço no teu olhar
E não vejo senão a voz que me embala os sonhos
Ao pé de ti cresço e sou criança
Ao pé de ti sou mais gente
Contente?!
Talvez.
Feliz?!
Certamente.
Ao pé de ti
Todas as águas se acalmam
Todos os pássaros se calam
Todo o planeta se encolhe
e NÓS
Tão grandes
No centro
Mão na mão
Ombro a ombro
Ao pé de ti 
Não sou eu
És tu e eu
Mas um só
Ao pé de ti somos sol.

Lena mar – outubro – 2014

Gosto

GOSTO

Gosto de mar e de sol
De ouvir as ondas bater
No penhasco desta Ilha
De estar sozinha a ouvi-lo
Gosto…
De ler este livro e outro
Ao som da brisa marinha

Gosto…
Do cheiro do feno fresco
Cortado por mãos bem firmes
Nas manhãs quentes de verão
E de ouvir a passarada
Algazarrada e feliz
Fazendo ninhos de amor
Nos ramos bem abrigados
Tenros e elevados

Gosto…


De te ver chegar
Ao fim da tarde a sorrir
Gosto … tanto… de te ouvir
As palermices sem fim
Sorrio enquanto tu falas
E dás voltas na conquista
Daquilo que sem suspeita
Há algum tempo tens de mim

E agora… o que faço?
Sem teu olhar, teu sorriso,
Tua conversa, teu beijo enfim…
Fico à espera que a maré
Venha alta e te traga
Num rodopio, p’ra mim.


Hmar -1984

Do outro lado de mim


DO OUTRO LADO DE MIM...

Quando os sonhos se misturam
Nostalgia transversal
Percorridos os caminhos
Horizontes, vendavais
Paraíso universal
De sentidos sem medida

Alma corpo tudo junto
Correm procuram no tempo
Acrescentam um momento
Uma fuga um suspiro
A paz onde me retiro
No teu abraço fugaz

Caem silenciosas
Feitas feridas
Não lágrimas
Não no rosto
Na razão
Na palma da tua mão
Quando a toco levemente
Com intensidade incerta
Arrepio imensidão

Sou um espelho sem razão
Uma nuvem que passou
E tu um vento selvagem
Com rumo mas sem navio
Ou velas para navegar
Perdido em alto mar

Longe deste mar sereno
Que te acolhe assustador
Sempre que vens procurar
A medo
Quase vazio

Na sacola só a dor

Vem sarar as nossas almas
Acalmar dessas tormentas
Fazer do riso uma flor
Navegar em águas calmas
Coloridas doces afãs
Encher o copo vazio
Com o mais doce licor
lena mar – 28_06_2015

Luísa Dacosta

Poema que fala... de ... tanto...

LUÍSA DACOSTA
Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.
Apelo
Atravessa os campos da noite
e vem.
A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.
Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.
Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.
Atravessa os campos da noite
e vem.
A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto: Edições Asa, 2002