terça-feira, 1 de março de 2016

A minha cidade

Ai cidade

Gosto de ti
Gosto de ti serena
Quando à noite já cansada da azáfama dos dias
Encostas a cabeça na almofada da Sé e dormes
Quando fechas os olhos e te enroscas
a Sul
no Moinho de Vento
ou na Meia Laranja

Quando o dia claro e solarengo dá lugar à luz do candeeiro
e torna amarelo o teu vestido de pedra
Quando a rua Direita é ainda um murmúrio delicioso

Gosto de ti de manhã cedo
por entre as árvores do Fontelo
e do cheiro a terra e verde que lá tens

Gosto de ti com cheiro a café forte no Rossio
ou na rua da Paz
Quando a rua é já vazio e a luz clara já partiu

Gosto de ti na noite de verão
nas ruas íngremes que percorres
até ao latoeiro ao queijo e ao presunto

Gosto de ti no telhado de pedra dessa Sé
que me viu estudar…
contemplar… amar… chorar…

Mas gosto sobretudo de ti
na calçada que atravessa o rio
e sobe ligeira até ao teu ventre
e me deixa aninhada
e ofegante no carinho dos teus braços

Gosto de ti nos etéreos recantos
desse parque dos amores
onde a manhã sabe flores da primavera
e a tarde a outono quente

Gosto gosto muito de ti

Gosto de ti ao longe nas breves ausências
E de voltar a entrar … devagarinho…
Sem pressas
Suavemente
Saboreando cada pedacinho
da tua voz
da tua carne
da tua ternura

És minha
Sempre foste minha

Estou em casa

LenaMar - fevereiro 2016
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