Outro tempo!
A avó Ana. A avó Ana morava ao meu lado.
A tia levantava-a pela manhã, lavava-a e vestia-a e vinha sentá-la no seu lugar de eleição, no banco à frente do forno e junto à lareira. Dava-lhe o pequeno almoço, que ela comia pela metade e sempre a refilar que era muito. Deixava-lhe uma banana no armário, com a recomendação de que a comesse, e o copito com vinho e açúcar sobre a "pilheira" a amornar, que ela bebia em pequenos goles durante todo o dia! Na verdade, tanto açúcar quanto vinho...
Depois, a tia saía para cuidar dos animais, ir à lenha ou qualquer outro afazer.
Quando sentia que a tia já não estava por perto, a avó vinha ao patim... De lá, avistava o da minha casa, a ver se me via!
Às vezes vinha só ao postigo da porta. Se me via, o que era frequente, pois eu andava por ali na brincadeira ou nas tarefas da mãe, chamava, quase num sussurro: "Ó Helena, anda cá, pequena! Chega aqui num'stante!". Eu obedecia e estava lá num segundo. Primeiro, quando ainda tinha mais forcita, trazia a banana debaixo do avental e dizia: "Pega lá, pega lá! Come-a tu senão tenho que deitá-la fora, só para não ouvir a tua tia! Come-a depressa, come-a depressa!"
As primeiras vezes ainda disse que não, mas com o tempo fui-me habituando àquela rotina quase diária e, afinal, bananas naquela altura ainda eram uma iguaria que pouco se via na aldeia!
Nunca cheguei a saber bem se mas dava porque não as queria ou porque achava que me faziam mais falta a mim! Mas sei que gostava de mim e que me defendia da minha mãe, quando eu fugia de casa para brincar com os primos sem dizer nada!
Cada vez que ouvia a mãe a chamar zangada, era junto da avó que me ia aconchegar! "A pequena está aqui! Que lhe queres?" Então a mãe tentava explicar: "A malandra fugiu-me outra vez! Tem que levar umas palmadas!". Mas a avó era rija: "Ora ora! Não bates nada na menina!", e levantava o pau de apoio em riste, em defesa da sua pequena!
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